Interfectorem



    Zillian é uma maga talentosa, outrora Arquimaga real e residente no castelo, mas isso foi a muito tempo, numa época onde havia harmonia e segurança, ainda que o reino estivesse sempre envolvido em guerras.

    Ela agora mora em uma biblioteca no centro da cidade, reclusa e subversiva, passando seus dias divididos entre ajudar seu povo e a se esconder dos guardas que a caçam incessantemente, contando seus dias até que alguém no meio da noite arrombe a frágil porta de seu esconderijo.

    Hoje, em meio a uma tempestade, isso aconteceu.

    Com um chute a velha porta quebra sua frágil trava de madeira, Zillian dá um pulo de sua cama e sacou sua varinha, porém a figura que se revela não era de um soldado ou caçador, mas sim um velho molhado vestido a trapos com uma feição cansada e triste.

    - Quem é você? - gritou ela apontando a varinha e energizando-a para um disparo, Zillian evitava muito usar magia, isso poderia ser facilmente detectado pelos seus inimigos, mas agora já não fazia diferença.

    O velho andou na direção dela, devagar mas sem medo da varinha que tinha apontado para si, tirou seu capuz molhado e deixou que ela visse seu rosto com mais clareza. A Maga olhou ele nos olhos sem reconhecê-lo, imaginando que se ele fez isso era por que os dois já se conheciam.

    - Afaste-se, Quem é você? - o homem parou de andar, os dois se encaram por alguns segundos, quando ela finalmente o reconheceu, suas pernas fraquejaram e ela quase derrubou a varinha.

    - Mi... Milord? O senhor Voltou! - A moça correu e abraçou o velho, que por um segundo sorriu, mas logo voltou a sua feição triste e preocupada.

    - Onde o Senhor esteve, achamos que estava morto! Foram o quê? Vinte? Trinta anos? Por que demorou tanto? estava preso? Perdido?

    - Calma Zillian... - falou finalmente o velho.

    - Calma nada! Por que demorou tanto, não sabe o que passamos, alguns de nós morremos, outros se perderam no mundo tentando te encontrar... Se estava preso eu lhe peço perdão, falhamos no seu resgate.

    - Calma Zillian! - respondeu o rei de forma mais forte quase gritando.

    Fizeram um segundo de silêncio, depois ela riu, lembrou que havia 28 anos que ele não a repreende por sua tagarelice. - Estou feliz em ver o senhor de novo!

    - Quem está no trono? Perguntou o rei após outro silêncio embaraçoso.

    - Thoreon, O Regicida! Embora apesar do nome,  desta vez não precisou matar nenhum rei para assumir o trono, mas tenho que te contar, ele deve ter sido o quarto ou quinto que assume o controle do reinado desde que você sumiu...

    - Vista-se, temos que ir depressa.- interrompeu ele novamente.

    - Para onde?

    - Para o castelo.

    A Maga põe seu manto e pega sua bolsa, mantinha suas coisas sempre prontas para uma eventual fuga. - Você trouxe algum Exército? Algum aliado ou algo do tipo?

    - Pareço alguém que está liderando um exército? Vamos eu conheço um atalho.


    Em meio a chuva os dois saem da cidade, adentram a floresta e entram em uma caverna escondida, criada para servir de fuga ou para traficar alimentos no caso da cidade ser sitiado.

    A passagem esta a muito tempo abandonada, com água até o joelho dos dois e cheia de obstáculos como rochas e galhos, Zillian usa sua magia para liberar o caminho.

    - Preciso economizar Mana se queremos enfrentar o usurpador sozinhos.
    - Pode deixar que do Regicida eu dou conta.
    - Olha... - continuou a Maga - Temos bastante tempo até chegar à sala do Rei.. A sua Sala.. Então, pode me contar o que houve? Você estava mesmo preso? perdido? Suspeitávamos que que não estava morto por que ninguém conseguiu empunhar a Interfectorem.

    Interfectorem Exercituum é o nome de sua antiga espada, ao qual ele havia deixado para trás junto com todo resto, a magia da espada permite que apenas o legítimo rei a segure, mas mesmo após sua partida, ela causava graves queimaduras aos novos monarcas que a tocavam, então a colocaram em uma mesa no centro da sala do trono, como apenas uma relíquia, um mero ornamento real.

    - Você nos abandonou? - continuou Zillian, com medo da resposta.

    O Rei parou, deu um suspiro. - Estou aqui agora não é? Isso não é o que importa?

    Ela sabia que ele não gostava muito de se abrir, sempre deixava para ela e para o conselho real tomar as decisões importantes do reinado, uma estratégia que estava funcionando bem, mas não durou muito após seu desaparecimento.


    Thoreon entra na sua sala, sem armadura com apenas alguns guardas, imaginando estar completamente seguro atrás dos espessos tijolos dos muros do castelo, se depara com os dois aventureiros saindo de um alçapão por de trás do trono.


    -Eu não acredito no que meus olhos vêem! Zillian? Depois de tanto procurar cai de bandeja nas minhas graças - Disse ele enquanto ria. - E esse ai quem é? trouxestes teu pai? Espero que seja um bruxo melhor do que você Zillian.

    - Sou o legítimo rei e exijo que devolva a coroa! - respondeu ele, depois se virou para a Maga.  -Zillian Segure os guardas e tranque a porta.

    Ela, mesmo preocupada com a segurança do rei, acatou as ordens e correu em direção a porta, logo foi perseguida pelos dois cavaleiros fortemente armados que estavam na sala.

    O regicida olha para o rei e para a espada - Você planejava pegá-la não é? achava que eu estaria em meus aposentos a essas horas não? Tolo, por que não tenta pegá-la agora?

    A espada está bem mais distante do rei que Thoreon, mesmo assim ele tenta correr na direção dela, no primeiro passo que dá o Regicida puxa uma adaga que sempre leva consigo na cintura e avança sedento para cima do rei, um velho visivelmente desarmado.

    Mas Thoreon havia caído em sua armadilha, e quando estavam muito próximos um do outro o Legítimo rei apenas estica seu braço e a espada se lança velozmente pelo salão em direção a sua mão, e com apenas um golpe rápido a cabeça de Thoreon roda por cima do tapete real, seu corpo desfalecido e decapitado cai de joelhos por um segundo antes de tombar completamente.

    Zillian que já havia derrubado os guardas e estava indo em direção a porta parou atônita, ao mesmo tempo aterrorizada com o cabeça ensanguentada, mas também deslumbrada em ver o rei empunhando Interfectorem depois de tantos anos.

    Os outros guardas que ouviram o barulho forçam a porta e entram aos montes no salão, vêem aquela cena e rapidamente entendem o que havia ocorrido, sabiam quem ele era e que o usurpador estava morto.

    O primeiro a se ajoelhar foi Galahad, líder da guarda real, que conhecerá o rei pessoalmente, e logo foi seguido por alguns outros, os fiéis ao Regicida, guardas que ele mesmo havia trago, só puderam largar as armas e correr.

    -Vida Longa ao Rei - gritou Zillian, seguida pelo grito dos demais repetindo sua frase. - Juntos vamos reconstruir o reinado como nos tempos de outrora, das montanhas uivantes até os mares de sangue, todos sabem que nosso rei retornou.

    - Quanto a isso...- disse ele meio encabulado. - Sinto muito, mas... mas não posso.

    - Eu lamento muito ter deixado vocês, mas eu não posso ficar.

    - Como assim? - respondeu ela gaguejando - Esse é seu reino, o que pode ser mais importante que seu reino? Eu não entendo?

    - Talvez jamais entenda, mas escute, você sempre comandou muito melhor que eu, pegue isso. - estica a mão oferecendo o punho da espada mágica, ela hesita por um segundo, é muita coisa para processar ao mesmo tempo, ele acrescenta: - Eu quem estou entregando a você, então ela não vai te queimar.

    A Maga segura a espada, realmente não a queimou, mas a lâmina começou a emanar uma luz que iluminou toda a sala, saiu pelas portas e janelas, logo outros guardar vieram e também alguns serviçais curiosos.

    Diante de uma plateia ainda maior, Galahad se levanta e Grita:

    - Vida Longa a Rainha Zillian, Primeira de seu Nome! - seu grito logo foi repetido em coro pelos demais.

    - Olha, não era assim que imaginava que a noite terminaria! - diz Zillian para seu antecessor, mas quando percebe, ele já não estava mais na sala.






    As luzes se acendem, os dispositivos eletrônicos o informam que a simulação terminou, ele tira o capacete neural e esfrega os olhos como quem acorda de um sono, se levanta da maca e veste seus chinelos, mas não percebeu a pequena figura que o observava no escuro:

- Você estava jogando Vovô?

- O... o que você está fazendo acordado?

- Eu ouvi um barulho, achei que era o papai Noel. Você estava jogando?

- Heim? Nem é natal... Não eu apenas deitei pra esticar as costas e cochilei, sabe como seu avô é, agora vamos voltar pra cama.

- Achei que estava jogando, a mamãe disse que você jogava muito, quase perdeu seu emprego jogando, é verdade vô?

- É sim - respondeu sorrindo - Eu era muito famoso naquele jogo, o melhor nele, seu avô conseguiu se tornar o rei sabia? Mas isso serve pra você também mocinho, não jogue demais, você também precisa estudar!

- Rei! - disse espantado - Nossa, que legal vô! e o que você fez com a sua conta?

- Bom, Quando sua mãe nasceu eu decidi vender conta, nunca mais joguei desde então.

- A... Que pena.
















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Ares